Reúso de água na indústria: 7 passos para usar a mesma água duas vezes
Reúso de água é usar de novo a água que a fábrica já usou, tratada no nível que o uso seguinte exige. Veja os tipos, onde ele rende mais, as normas brasileiras e os 7 passos para implantar.
Por T&D Sustentável 9 min de leitura
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Reúso de água na indústria é usar de novo, dentro da fábrica, a água que já passou por um processo, depois de tratá-la no nível que o uso seguinte exige. A água do enxágue pode ir para a lavagem de pisos; o efluente tratado pode abastecer a torre de resfriamento. O resultado é menos água comprada ou captada e menos efluente descartado. O caminho para implantar começa pela medição: sem saber quanto cada processo consome, e com que qualidade a água sai dele, não há como casar a água que sobra com o uso que a aceita.
Em resumo:
- Reúso é usar de novo uma água já usada. Aproveitar a chuva é outra coisa, embora entre no mesmo projeto de fontes alternativas.
- As maiores oportunidades costumam estar nas utilidades: torre de resfriamento, lavagem de áreas e equipamentos, descargas e irrigação.
- A base federal é a Resolução CNRH nº 54/2005. A Lei nº 14.546/2023 manda a União estimular o reúso não potável de águas cinzas, inclusive na indústria.
- O passo que mais se pula é o primeiro: medir o consumo por setor.
- Em escala, funciona: o Aquapolo, no ABC paulista, produz até 1.000 litros por segundo de água de reúso para o Polo Petroquímico de Capuava.
O que é reúso de água?
Reúso de água é o aproveitamento planejado de uma água que já foi usada, a água residuária, para uma nova finalidade. Quando ela segue tratada direto para o novo uso, sem passar antes por um rio ou aquífero, é reúso direto, a modalidade que a Resolução CNRH nº 54/2005 regula para fins não potáveis.
Quatro conceitos costumam se misturar:
- Reúso: a água sai de um uso e vai para outro, depois do tratamento necessário. Exemplo: o efluente tratado da fábrica abastece a lavagem de pátio.
- Reciclagem ou recirculação: a água volta ao mesmo processo, em circuito. Exemplo: a água de resfriamento que circula entre as máquinas e a torre.
- Água cinza e água negra: cinza é a que sai de pias, chuveiros e lavatórios; negra é a dos vasos sanitários. A cinza tem menos carga orgânica e é a mais simples de reaproveitar.
- Aproveitamento de água de chuva: a água não foi usada antes, então não é reúso, mas costuma entrar no mesmo projeto, com norma própria, a ABNT NBR 15527.
Quais são os tipos de reúso na indústria?
Cada tipo parte de uma origem diferente e serve a usos diferentes. O que decide o tratamento é a qualidade que o uso seguinte exige, e não a qualidade máxima possível.
| Tipo | De onde vem a água | Usos típicos | Tratamento |
|---|---|---|---|
| Reúso em cascata | Um processo que exige água de boa qualidade | Um processo menos exigente, como a pré-lavagem | Pouco ou nenhum |
| Recirculação | O próprio processo | O mesmo processo, como resfriamento e lavagem de peças | Filtração e controle químico |
| Efluente tratado interno | A estação de tratamento da própria fábrica | Torre de resfriamento, lavagem de pisos, irrigação, descargas | Polimento conforme o uso, de filtração a membranas |
| Água de reúso externa | Estação de tratamento de esgoto da cidade | Resfriamento, caldeira e processos | Feito pelo produtor, com membranas e osmose reversa |
| Águas cinzas | Lavatórios, chuveiros e vestiários | Descargas e lavagem de áreas externas | Simples a moderado |
A água de reúso externa depende de uma estação de esgoto perto do polo industrial. O Aquapolo, que trata efluente doméstico no ABC paulista, tem capacidade para produzir até 1.000 litros por segundo de água de reúso e já entregou cerca de 138 bilhões de litros em 13 anos ao Polo Petroquímico de Capuava, volume equivalente ao consumo de uma cidade de aproximadamente 500 mil habitantes, segundo o Diário do Grande ABC.
Onde o reúso rende mais numa fábrica?
O reúso rende mais onde há muito volume e pouca exigência de qualidade. Em muitas plantas, isso está nas utilidades, e não no produto:
- Torres de resfriamento. Repõem a água que evapora e a que é descartada na purga. Costuma ser o maior volume não potável da fábrica, e aceita água de reúso com controle de dureza, sílica e microrganismos.
- Lavagem de pisos, pátios, caminhões e equipamentos. Exige pouca qualidade e consome volume todos os dias.
- Descargas sanitárias e mictórios. Uso clássico de água cinza tratada, nos prédios administrativos e vestiários.
- Irrigação de áreas verdes. Sazonal, mas simples de abastecer.
- Caldeiras. Aceitam reúso, mas só depois de tratamento avançado, como osmose reversa e desmineralização. É o uso que mais encarece o projeto.
Em alimentos, bebidas e fármacos, a água que toca o produto segue as regras sanitárias do setor, e o reúso costuma ficar nas utilidades.
A indústria brasileira já mostrou o efeito em escala. Segundo a Confederação Nacional da Indústria, a indústria automobilística reduziu em 50% o uso de água na fabricação de veículos entre 2008 e 2013, com sistemas de reúso, captação de chuva e reciclagem entre as ações, e a indústria química reduziu em 25% a captação de água entre 2006 e 2016.
Como implantar o reúso de água em 7 passos?
- Medir e setorizar o consumo. Monte o balanço hídrico: quanto entra, quanto vai para cada processo, quanto evapora e quanto sai como efluente. Sem medidor por setor, o balanço vira estimativa. A telemetria encurta essa etapa, porque lê os medidores sozinha e mostra o consumo hora a hora, inclusive de madrugada.
- Caracterizar a água que sobra. Para cada efluente, a vazão e a qualidade: sólidos, carga orgânica, condutividade, óleos e o que mais o processo deixar na água.
- Casar oferta e demanda por qualidade. Liste o que cada uso exige e ligue primeiro os pares mais baratos: a água que já serve sem tratamento, depois a que precisa de pouco.
- Escolher o tratamento. De filtração simples a biorreator de membranas e osmose reversa. O dimensionamento parte da qualidade que o uso exige e da vazão real medida no passo 1.
- Testar em piloto. Um teste em escala reduzida confirma a qualidade e a estabilidade da água tratada antes do investimento completo.
- Cuidar das normas e da segurança. Rede e reservatório separados da água potável e identificados, licença ambiental e outorga quando o órgão do seu estado exigir, e um plano de monitoramento da qualidade. A ligação cruzada entre a rede de reúso e a potável é o risco que o projeto precisa eliminar.
- Medir o resultado. Compare o consumo antes e depois com um protocolo de medição e verificação. A T&D mede a economia pelo protocolo internacional IPMVP, com linha de base construída a partir do histórico de consumo, o que torna o resultado auditável.
Quais normas regulam o reúso de água no Brasil?
Não há uma lei única de reúso. O que vale é um conjunto de normas, e a licença ambiental de cada estado completa o quadro:
- Resolução CNRH nº 54/2005: define o reúso direto não potável e cinco modalidades: fins urbanos, agrícolas e florestais, ambientais, industriais e aquicultura.
- Lei nº 14.546/2023: alterou a Lei do Saneamento (Lei nº 11.445/2007) para que a União estimule o uso de água de chuva e o reúso não potável de águas cinzas em novas edificações e em atividades paisagísticas, agrícolas, florestais e industriais. A rede e o reservatório dessas águas devem ser separados da rede pública, e a água precisa de tratamento que garanta o uso seguro.
- ABNT NBR 16783:2019: uso de fontes alternativas de água não potável em edificações residenciais, comerciais, institucionais, de serviços e de lazer. Não cobre processos industriais, mas cobre os prédios de apoio da fábrica.
- ABNT NBR 15527: aproveitamento de água de chuva.
- ABNT NBR 13969/1997: tratamento complementar de efluentes e reúso local, com classes de qualidade por tipo de uso.
Quanto de água dá para economizar com reúso?
Depende do processo, e é por isso que o número só aparece depois da medição. Projetos de reúso costumam vir depois da correção das perdas: não faz sentido tratar e reaproveitar a água que está vazando.
É a ordem que a T&D segue. O SEA 360º mede, corrige perdas e padroniza os pontos de consumo, com redução de até 70% do gasto com água no programa completo. Depois que o resultado está comprovado, o SEA+ reinveste a economia gerada em novos projetos de eficiência hídrica, como reúso, automação, troca de equipamentos e captação.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre reúso e reciclagem de água?
No reúso, a água sai de um uso e vai para outro, depois do tratamento necessário. Na reciclagem, ou recirculação, ela volta ao mesmo processo, em circuito. Uma fábrica costuma ter os dois: a torre de resfriamento recircula a água, e o efluente tratado repõe a parte que evapora.
Água de chuva é reúso?
Não. Reúso é usar de novo uma água que já foi usada, e a água de chuva ainda não foi. Os dois costumam entrar no mesmo projeto de fontes alternativas, mas cada um tem norma própria: o aproveitamento de chuva segue a ABNT NBR 15527.
Água de reúso pode ir para a caldeira?
Pode, desde que passe por tratamento avançado, como osmose reversa e desmineralização, porque a caldeira exige água de qualidade muito alta. Por isso ela costuma ser o último uso a receber reúso, depois das torres de resfriamento e da lavagem.
Reúso de água precisa de licença?
Depende do estado e do tipo de reúso. O tratamento de efluentes já costuma estar na licença ambiental da fábrica, e mudar o destino da água tratada pode exigir atualização. Consulte o órgão ambiental do seu estado antes de implantar.
Água de reúso pode ser usada para beber?
Não. A Resolução CNRH nº 54/2005 trata do reúso direto não potável, e o reúso para consumo humano não está previsto nas modalidades dela. Água de reúso circula em rede separada e identificada justamente para não se misturar à potável.
Fontes
- Resolução CNRH nº 54, de 28 de novembro de 2005
- Lei nº 14.546, de 4 de abril de 2023
- CBIC: lançadas as normas técnicas ABNT NBR 16782 e 16783 e a revisão da NBR 15527 (2019)
- Confederação Nacional da Indústria: como a indústria contribui com o uso eficiente de água (2018)
- Diário do Grande ABC: Braskem e Aquapolo reforçam a segurança hídrica na região (21/03/2026)
Publicado originalmente em 14 de março de 2025. Atualizado em 15 de outubro de 2026.