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Perdas de água: o Brasil perde 39,53% da água tratada antes da torneira

Em 2024, o Brasil perdeu 39,53% da água tratada antes de ela chegar ao consumidor. Veja como funciona a distribuição de água potável, o que são perdas físicas e aparentes, quais estados e cidades perdem mais, as metas da Portaria 788/2024 e quem paga a perda depois do hidrômetro.

Por T&D Sustentável 9 min de leitura

Tubulações industriais enferrujadas com três registros de volante e manômetros, num galpão antigo com estrutura metálica no teto
Neste artigo · 8
  1. Como funciona a distribuição de água potável?
  2. O que são perdas de água?
  3. Quanto de água o Brasil perde?
  4. Quais estados e cidades perdem mais água?
  5. Quais são as metas de redução de perdas?
  6. E dentro da empresa, quem paga a perda?
  7. Perguntas frequentes
  8. Fontes

Perdas de água são a diferença entre a água que a concessionária produz e a que chega medida ao consumidor. Em 2024, o Brasil perdeu 39,53% da água tratada na distribuição, segundo o Estudo de Perdas de Água 2026 do Instituto Trata Brasil, feito com dados do SINISA, o sistema nacional de informações em saneamento. Só as perdas físicas somaram cerca de 4,4 bilhões de m³, volume que abasteceria 77 milhões de brasileiros por um ano.

Em resumo:

  • O índice de perdas na distribuição foi de 39,53% em 2024, quase o mesmo dos 40,14% de 2020.
  • Há dois tipos de perda: a física, de vazamentos, e a aparente, de erros de medição e consumo não autorizado. Nas capitais, 60% das perdas são físicas e 40% aparentes.
  • As perdas físicas de 2024 equivalem a 4,8 mil piscinas olímpicas por dia, ou a 4,5 vezes o volume do Sistema Cantareira ao longo de um ano.
  • A Portaria MCID nº 788/2024 fixa limites de 35% até 2025, 30% de 2026 a 2032 e 25% a partir de 2033. Só 12 dos 100 municípios mais populosos já cumprem a meta de 2033.
  • Depois do hidrômetro, a perda é do imóvel: o vazamento dentro do prédio passa pelo medidor e é cobrado na conta.

Como funciona a distribuição de água potável?

A água percorre um caminho longo até a torneira, e pode se perder em quase todas as etapas:

EtapaO que aconteceOnde a água se perde
CaptaçãoA água é retirada de rios, represas ou poçosVazamentos nas estruturas de captação
TratamentoA estação de tratamento torna a água potávelÁgua usada na limpeza de filtros e decantadores
AduçãoAdutoras levam a água tratada até os reservatóriosRompimentos e vazamentos em tubulações de grande porte
ReservaçãoReservatórios guardam a água e regulam a pressãoExtravasamentos e vazamentos nas estruturas
Rede de distribuiçãoTubulações levam a água pelas ruasVazamentos visíveis e invisíveis, sobretudo em redes antigas e com pressão alta
Ligação e hidrômetroO ramal leva a água até o imóvel e o hidrômetro mede o consumoVazamentos no ramal, hidrômetros que medem menos, ligações clandestinas
Instalação do imóvelA água chega às torneiras, descargas e equipamentosVazamentos internos, já medidos e cobrados do consumidor

O índice de perdas na distribuição, o indicador mais usado no Brasil, compara a água produzida com a efetivamente consumida. Tudo o que fica no caminho entra na conta como perda, e alguém paga por ela: a concessionária, nos custos, e o consumidor, na tarifa.

O que são perdas de água?

São a água que a concessionária produziu e não faturou. O Trata Brasil resume as causas em três: vazamentos, erros de medição e consumos não autorizados. Elas se dividem em dois grupos:

TipoO que éExemplosEfeito
Perda física, ou realÁgua que sai do sistema e nunca chega a ninguémVazamentos em adutoras, redes e ramais, extravasamento de reservatóriosExige captar e tratar mais água, com mais energia e produtos químicos
Perda aparente, ou comercialÁgua que chega ao consumidor, mas não é medida ou cobradaHidrômetro que mede menos, ligações clandestinas, erros de leitura e de cadastroReduz a receita e pesa na tarifa de quem paga

Nas capitais, o estudo estima que se percam cerca de 2,3 bilhões de m³ por ano: 1,4 bilhão em perdas físicas (60%) e 0,9 bilhão em perdas aparentes (40%).

Zerar as perdas é impossível, e o próprio estudo explica por quê. Há um limite econômico, porque a partir de certo ponto recuperar cada metro cúbico custa mais do que ele vale, e um limite técnico, dado pelos materiais, ferramentas e logística de hoje. A meta não é zero; é um nível eficiente.

Quanto de água o Brasil perde?

Muito, e há anos sem melhora real. O índice foi de 40,14% em 2020 e de 39,53% em 2024. As perdas físicas de 2024, de cerca de 4,4 bilhões de m³, equivalem a:

  • 77 milhões de brasileiros abastecidos por um ano, mais de um quarto da população do país e mais de duas vezes os cerca de 33 milhões de pessoas sem acesso à água;
  • 4,8 mil piscinas olímpicas desperdiçadas por dia;
  • 16,2 milhões de caixas d’água de uma família de cinco pessoas por dia;
  • 4,5 vezes o volume do Sistema Cantareira, que abastece a Grande São Paulo, ao longo de um ano.

Na comparação internacional, feita pelo estudo com dados da rede IBNET, ligada ao Banco Mundial, a média de 71 países entre 2021 e 2024 foi de 39,71%, e o Brasil ficou em 35º lugar. Os autores pedem cautela com a comparação, porque os dados são declarados voluntariamente, mas apontam que perdas bem menores são possíveis: a Nova Zelândia registra 19,09%, e o Sri Lanka, país de renda média-baixa, 25,82%.

Quais estados e cidades perdem mais água?

As regiões Norte e Nordeste concentram as maiores perdas, e são também as que têm os piores índices de atendimento de água, de coleta e de tratamento de esgoto:

EstadoPerdas na distribuição em 2024
Alagoas66,90%
Roraima65,97%
Pará57,33%
Maranhão56,68%
Acre56,48%
Sergipe55,10%
Média do Brasil39,53%
Paraná33,40%
São Paulo32,15%
Distrito Federal31,55%
Mato Grosso do Sul30,60%
Goiás27,13%
Piauí24,61%, o único estado abaixo de 25%

Nas cidades, a diferença é ainda maior. Entre os 100 municípios mais populosos, a média foi de 35,56% em 2024, pior que os 31,09% de 2023; 20 ficaram abaixo de 25%, e 14 passaram de 50%. Suzano (1,27%), Santos (5,35%) e Goiânia (11,45%) lideram; Parauapebas (70,68%), Belo Horizonte (68,29%) e Maceió (64,05%) têm os piores índices. Só quatro das 27 capitais ficaram abaixo de 25%: Goiânia, São Paulo, Campo Grande e Teresina.

Quais são as metas de redução de perdas?

As da Portaria MCID nº 788, de 1º de agosto de 2024, que revogou a Portaria nº 490/2021. Ela vale para os municípios que recebem recursos públicos federais ou financiamentos com recursos da União, e combina dois indicadores, a perda percentual na distribuição e a perda por ligação:

PrazoPerdas na distribuiçãoPerdas por ligação
Até 2025Até 35%Até 303 litros por ligação por dia
De 2026 a 2032Até 30%Até 263 litros por ligação por dia
A partir de 2033Até 25%Até 216 litros por ligação por dia

Com a média nacional em 39,53%, o país não cumpriu nem a primeira régua. Só 12 dos 100 municípios mais populosos atendiam às duas metas de 2033 em 2024, entre eles Goiânia, Teresina e Campo Grande. Levar as perdas de 39,5% a 25% economizaria cerca de 2,8 bilhões de m³ por ano, o consumo médio de aproximadamente 48 milhões de brasileiros. Coleta e tratamento de esgoto, a outra metade do saneamento, estão em coleta e tratamento de esgoto no Brasil.

E dentro da empresa, quem paga a perda?

O próprio imóvel. Em regra, a instalação depois do hidrômetro é responsabilidade de quem ocupa o imóvel, e toda água que passa pelo medidor é cobrada, chegue ou não a ser usada. A lógica das perdas da rede pública se repete em cada prédio: vazamento em tubulação enterrada, boia que transborda, descarga com filete e consumo fora de hora são água comprada e jogada fora.

O teste é o mesmo que as concessionárias usam: comparar o consumo com o uso real e olhar o hidrômetro quando ninguém está usando água. Os sinais e o passo a passo estão em vazamento oculto: 7 sinais e como achar sem quebrar parede.

Quando o vazamento existe e não aparece, o Caça Vazamento Eletrônico da T&D localiza o ponto sem quebrar parede, combinando geofonia, termografia e testes de pressão. Para o próximo vazamento aparecer na hora, e não na fatura, o monitoramento remoto TDRR acompanha o consumo 24 horas por dia e avisa quando algo sai do padrão.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre perda física e perda aparente?

A perda física é a água que vaza e não chega a ninguém, em adutoras, redes, ramais e reservatórios. A perda aparente é a água que chega ao consumidor mas não é medida ou cobrada, por hidrômetros que medem menos, ligações clandestinas ou erros de leitura e cadastro.

Por que não dá para zerar as perdas de água?

Por limites econômicos e técnicos. A partir de certo ponto, recuperar cada metro cúbico custa mais do que ele vale, e os materiais, ferramentas e a logística de hoje deixam sempre um volume mínimo de perdas. Por isso as metas buscam um nível eficiente, e não zero.

Qual estado perde mais água?

Alagoas, com 66,90% de perdas na distribuição em 2024, seguido por Roraima (65,97%) e Pará (57,33%), segundo o Estudo de Perdas de Água 2026 do Instituto Trata Brasil. O Piauí, com 24,61%, foi o único estado abaixo da meta de 25%.

O que diz a Portaria 788/2024?

Ela fixa limites de perdas para os municípios que recebem recursos federais: até 35% na distribuição e 303 litros por ligação por dia até 2025, 30% e 263 litros de 2026 a 2032, e 25% e 216 litros a partir de 2033. Revogou a Portaria 490/2021.

Quem paga o vazamento depois do hidrômetro?

Quem ocupa o imóvel. Toda água que passa pelo hidrômetro é cobrada, e a instalação interna, em regra, é responsabilidade do imóvel. Por isso vale testar o hidrômetro com tudo fechado e acompanhar o consumo de madrugada.

Fontes

Publicado originalmente em 25 de abril de 2024. Atualizado em 16 de outubro de 2026.

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