Crise hídrica e empresas: a tarifa que dobrou e mais 4 consequências
Na crise de 2014 e 2015, a Sabesp cobrou até 100% a mais na tarifa de água de quem passou da média, inclusive de indústrias e comércios. Veja as cinco consequências da crise hídrica para empresas, da conta de água à conta de luz, e o plano de contingência que mantém a operação de pé.
Por T&D Sustentável 10 min de leitura
Neste artigo · 9
- O que a crise hídrica muda para uma empresa?
- 1. Por que a água fica mais cara?
- 2. Por que a pressão cai e a água falta em algumas horas?
- 3. A captação própria pode ser restringida?
- 4. Por que a conta de luz sobe junto?
- 5. Onde buscar água quando a rede não dá conta?
- Como montar um plano de contingência hídrica?
- Perguntas frequentes
- Fontes
A crise hídrica atinge a empresa muito antes de a torneira secar. Na crise de 2014 e 2015 em São Paulo, a Sabesp passou a cobrar uma tarifa de contingência de 40% sobre a tarifa de água de quem consumisse até 20% acima da própria média e de 100% de quem passasse disso, e a regra valeu também para os grandes clientes com contrato de demanda firme, em sua maioria indústrias e comércios. Água mais cara é só a primeira das cinco consequências.
Em resumo:
- Água mais cara: em 2015, a tarifa de contingência da Sabesp chegou a dobrar a tarifa de água de quem consumia mais de 20% acima da média.
- Menos pressão na rede: a redução de pressão e o controle de perdas responderam por 41% da economia de água obtida no Cantareira, e quem não tem reservação sente primeiro.
- Captação própria em risco: a lei dá prioridade ao consumo humano, e a ANA pode alterar temporariamente as condições das outorgas numa escassez declarada.
- Energia mais cara: em 2021, a bandeira de escassez hídrica elevou em 6,78%, em média, a tarifa dos consumidores regulados.
- Corrida por fontes alternativas: em 2014, 70% dos grandes clientes fidelizados da Sabesp migraram para outra fonte de água.
O que a crise hídrica muda para uma empresa?
Muda o preço, a disponibilidade e as regras de uso da água, e depois o preço da energia. A crise de 2014 e 2015 na Grande São Paulo e a de 2021 na bacia do Paraná deixaram registrado, em documentos oficiais, o que acontece com quem depende de água para operar:
| Consequência | O que aconteceu | Quem sentiu mais |
|---|---|---|
| Água mais cara | Tarifa de contingência de 40% a 100% sobre a tarifa de água, de fevereiro de 2015 em diante | Quem consumia acima da média de fevereiro de 2013 a janeiro de 2014 |
| Menos água na rede | Redução de pressão nas tubulações, intensificada a partir de dezembro de 2014 | Imóveis sem reservatório ou com reservação pequena |
| Outorga revista | A ANA pode alterar temporariamente as condições das outorgas de rios da União | Indústrias e irrigantes com captação própria |
| Energia mais cara | Bandeira tarifária de escassez hídrica, de setembro de 2021 a abril de 2022 | Operações intensivas em bombeamento, refrigeração e aquecimento |
| Fontes alternativas às pressas | Poços, caminhões-pipa e água de reúso contratados em plena crise | Quem não tinha plano nem fonte reserva |
As causas e a cronologia das duas crises estão em crise hídrica no Brasil: o que causou 2014 e 2021. Aqui, o foco é o que cada uma custou às empresas.
1. Por que a água fica mais cara?
Primeiro veio o incentivo, depois a cobrança. Em fevereiro de 2014, a Sabesp lançou o Programa de Bônus, com desconto na conta para quem reduzisse o consumo em relação à própria média: de início, 30% de desconto para quem economizasse pelo menos 20%, e, a partir do fim de 2014, também faixas de 10% e 20%. Um ano depois, como parte dos clientes seguia acima da média, a companhia criou a tarifa de contingência, aprovada em janeiro de 2015 e cobrada a partir das contas de fevereiro:
| Consumo do mês em relação à média | Efeito na conta |
|---|---|
| 10% a 15% abaixo | Desconto de 10% (bônus) |
| 15% a 20% abaixo | Desconto de 20% (bônus) |
| 20% ou mais abaixo | Desconto de 30% (bônus) |
| Até 20% acima | Mais 40% sobre a tarifa de água |
| Mais de 20% acima | Mais 100% sobre a tarifa de água |
Em março de 2015, 72% dos clientes da Região Metropolitana reduziram o consumo em mais de 10% e ganharam bônus, e 11% pagaram a tarifa de contingência. Para a empresa, a lição é direta: em crise, o mesmo consumo pode custar o dobro, e quem já consumia pouco tem menos margem para cortar, enquanto quem desperdiçava paga mais caro pelo desperdício.
2. Por que a pressão cai e a água falta em algumas horas?
A medida que mais economizou água na crise de 2014 não foi o bônus, foi a redução de pressão. Segundo a Sabesp, a retirada de água do Cantareira caiu 56% entre fevereiro de 2014 e março de 2015, e 41% dessa economia veio da redução de pressão e do controle de perdas, contra 20% do Programa de Bônus. A companhia calculou que um rodízio precisaria de dois dias com água e quatro sem só para igualar a redução já obtida em 2014.
Pressão menor na rede significa menos água chegando aos pontos altos e às pontas da rede em certos horários. Tanto que a Sabesp passou a distribuir caixas d’água a famílias de baixa renda. Na empresa, quem tem reservatório pequeno, ou nenhum, fica sem água justamente no horário de pico da operação. A pergunta a responder antes da crise é: quantas horas a operação aguenta só com o reservatório?
3. A captação própria pode ser restringida?
Boa parte da indústria não depende da concessionária. Na Macrometrópole Paulista, a indústria respondia por 31% da água bruta captada e só por 3% da água tratada produzida pela Sabesp, segundo o relatório da companhia sobre a crise, com dados do plano de recursos hídricos da região. Ou seja, a maior parte da água usada pela indústria ali não passa pela concessionária: vem de captação própria, autorizada por outorga.
E a outorga não é garantia em escassez. A Lei nº 9.433/1997 define que, em situações de escassez, o uso prioritário é o consumo humano e a dessedentação de animais. Em 2021, ao declarar situação crítica de escassez na Região Hidrográfica do Paraná, a ANA previu, no art. 2º da Resolução nº 77, que poderia definir condições transitórias para a operação de reservatórios, inclusive alterando temporariamente condições das outorgas de direito de uso. Quem capta em rio ou poço precisa de um plano para o dia em que o volume autorizado diminuir.
4. Por que a conta de luz sobe junto?
Quando os reservatórios das hidrelétricas baixam, o país aciona termelétricas, mais caras. Em 2021, a Agência Nacional de Energia Elétrica implantou a bandeira tarifária de escassez hídrica, prevista para vigorar de setembro de 2021 a abril de 2022, com aumento estimado de 6,78% na tarifa média dos consumidores regulados, segundo o Ministério de Minas e Energia.
Água e energia andam juntas dentro da empresa: bombas de recalque, aquecedores, caldeiras e torres de resfriamento consomem as duas. Reduzir o consumo de água quente e bombeada reduz também a energia gasta com ela, o que vale em dobro quando as duas tarifas sobem ao mesmo tempo.
5. Onde buscar água quando a rede não dá conta?
Em plena crise, quem depende só da concessionária precisa achar outra fonte, e rápido. A Sabesp liberou o consumo mínimo dos contratos de demanda firme e incentivou os grandes clientes a buscar outras fontes, e 70% dos clientes fidelizados migraram para uma fonte alternativa em 2014. No mesmo ano, a oferta de água de reúso das estações de tratamento de esgoto da Grande São Paulo somou 13,7 milhões de metros cúbicos, com uma linha nova para indústrias da zona norte da capital.
Quem já tinha reúso, captação de chuva ou um poço outorgado atravessou a crise com mais folga. Quem precisou contratar tudo às pressas pagou o preço de quem compra na emergência. O passo a passo para montar o reúso está em reúso de água na indústria.
A ANA também apontou, na resolução de 2021, impactos sobre a navegação, o lazer e o turismo na bacia do Paraná. Para quem depende de hidrovia, de turismo ou de insumos agrícolas, a crise chega também pela cadeia de fornecedores.
Como montar um plano de contingência hídrica?
Com seis passos, feitos antes da crise. Na crise de 2014 e 2015, as equipes da Sabesp visitaram órgãos públicos para orientar contingências internas: adequação dos reservatórios, localização e conserto de vazamentos internos, fontes alternativas e uso racional. O mesmo roteiro vale para qualquer empresa:
- Conheça o consumo. Meça por setor e por hora, com submedição onde fizer sentido. Sem linha de base, não há meta nem prova de redução.
- Calcule a autonomia. Divida o volume útil dos reservatórios pelo consumo por hora da operação. Um reservatório de 60 m³ numa operação que consome 5 m³ por hora dá 12 horas de autonomia.
- Elimine os vazamentos. Vazamento invisível consome reserva e entra na média que define bônus e sobretaxa. Veja como achar em vazamentos invisíveis.
- Garanta uma fonte reserva. Reúso, captação de chuva, poço outorgado ou contrato prévio de abastecimento por caminhão-pipa.
- Defina prioridades. Liste o que para primeiro e o que não pode parar: produção, cozinha, sanitários, climatização.
- Monitore em tempo real. Nível dos reservatórios, falha de bomba e consumo fora do padrão precisam gerar alerta na hora, não na conta do mês seguinte.
O TDRR da T&D cuida do passo 6: monitora reservatórios, cisternas, bombas e o consumo hora a hora e avisa por aplicativo, SMS, e-mail e WhatsApp quando algo sai do padrão. Só o monitoramento gera em média 10% de redução no consumo, segundo os dados da T&D. Para reduzir o consumo de base antes da próxima seca, o SEA 360º faz a implementação, sem obras, com linha de base pelo protocolo IPMVP, tecnologia de eficiência nos pontos de consumo, caça-vazamento eletrônico e reparos, seguida da gestão continuada. O teto observado no programa completo é de 70% de redução no consumo.
Perguntas frequentes
Quais são as consequências da crise hídrica para as empresas?
As principais são cinco: água mais cara, com tarifas de contingência; menos pressão e falta de água em alguns horários; restrição da captação própria por revisão de outorga; energia mais cara, com bandeira de escassez hídrica; e a corrida por fontes alternativas em plena crise.
O que foi a tarifa de contingência da Sabesp?
Uma sobretaxa criada em janeiro de 2015 para quem consumisse acima da média de fevereiro de 2013 a janeiro de 2014: 40% sobre a tarifa de água para quem passasse da média em até 20% e 100% para quem passasse de 20%. Valeu também para clientes com contrato de demanda firme, em sua maioria indústrias e comércios.
A empresa com poço próprio está protegida da crise hídrica?
Não totalmente. Em escassez, a lei dá prioridade ao consumo humano e à dessedentação de animais, e o órgão gestor pode alterar temporariamente as condições das outorgas, como a ANA previu na Resolução nº 77, de 2021, para a bacia do Paraná.
O que é um plano de contingência hídrica?
É o roteiro que a empresa prepara antes da crise para continuar operando com menos água: medição do consumo, cálculo da autonomia dos reservatórios, eliminação de vazamentos, fonte reserva, prioridades de uso e monitoramento com alertas em tempo real.
A crise hídrica aumenta a conta de luz?
Aumenta. Com reservatórios baixos, o país aciona termelétricas, mais caras. Em 2021, a bandeira de escassez hídrica teve aumento estimado de 6,78% na tarifa média dos consumidores regulados, segundo o Ministério de Minas e Energia.
Fontes
- Sabesp. Crise Hídrica, Estratégia e Soluções da Sabesp para a Região Metropolitana de São Paulo (CHESS), abril de 2015: Programa de Bônus, tarifa de contingência, redução de pressão, demanda firme, água de reúso e uso da água bruta na Macrometrópole
- Exame, «Sabesp constata redução de consumo e amplia bônus», 30/04/2014: desconto de 30% para quem reduzisse o consumo em pelo menos 20%
- ANA, Resolução nº 77, de 1º de junho de 2021: situação crítica de escassez na Região Hidrográfica do Paraná e alteração temporária de outorgas
- Ministério de Minas e Energia, «CREG determina a implementação de Programa de Resposta Voluntária da Demanda para os consumidores cativos e de bandeira tarifária escassez hídrica», 31/08/2021: bandeira de escassez hídrica e aumento estimado da tarifa média
- Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997, art. 1º: uso prioritário da água em situação de escassez
- TDRR e SEA 360º da T&D
Publicado originalmente em 19 de julho de 2024. Atualizado em 16 de outubro de 2026.