Pular para o conteúdo

Economia de água no agronegócio: como irrigar com menos água sem perder produção

A agricultura irrigada é o maior uso da água retirada no Brasil. Veja quanto cada método de irrigação aproveita, por que o manejo pesa mais que o equipamento, quanto vale cada ponto de eficiência por hectare e como economizar água na pecuária e na agroindústria.

Por T&D Sustentável 10 min de leitura

Aspersores lançando jatos de água sobre um gramado verde, com as gotas iluminadas pelo sol
Neste artigo · 8
  1. Quanto de água o agronegócio usa no Brasil?
  2. Qual método de irrigação gasta menos água?
  3. Por que o manejo pesa mais que o equipamento?
  4. Quanto se economiza ao melhorar a eficiência da irrigação?
  5. Como economizar água na pecuária e na agroindústria?
  6. Como monitorar a água da fazenda e da agroindústria?
  7. Perguntas frequentes
  8. Fontes

Economia de água no agronegócio passa, antes de tudo, pela irrigação: a agricultura irrigada responde por mais da metade da água retirada pelos setores no Brasil, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA). Irrigar com menos água sem perder produção depende de duas coisas: o método certo para cada cultura e o manejo que aplica a água na hora e na quantidade que a planta pede. Na pecuária e na agroindústria, valem as regras de qualquer operação: medir, achar as perdas e reusar.

Em resumo:

  • A agricultura irrigada respondeu por 53,7% da água retirada pelos setores no Brasil em 2021, segundo a ANA.
  • Nos sistemas de irrigação do mundo, perdem-se 15% na condução, 15% na distribuição e 25% na aplicação: só 45% chegam à cultura, segundo dados da ANA citados pela Embrapa.
  • A eficiência muda com o método: 40% a 75% na irrigação por superfície, 60% a 85% na aspersão e 80% a 95% na localizada, como gotejamento e microaspersão.
  • Numa irrigação de 4 mm por dia, cada ponto percentual de eficiência poupa cerca de 1.130 litros por hectare por dia, pelas contas da Embrapa.
  • Para a Embrapa, não adianta ter um sistema de alta eficiência se o manejo é deficiente: sensores de umidade, clima e balanço hídrico decidem quando e quanto irrigar.

Quanto de água o agronegócio usa no Brasil?

Mais do que qualquer outro setor. Segundo a ANA, a retirada total de água no Brasil chega a 96 trilhões de litros por ano. Desse total, 30% é evaporação dos reservatórios, e 70% vai para os usos dos setores. Entre os setores, a agricultura irrigada ficou com 53,7% em 2021, e, somada ao abastecimento urbano e à indústria de transformação, chega a cerca de 84% da retirada dos setores.

A tendência é de alta. A ANA projeta aumento de 30% nas retiradas entre 2022 e 2040, com participação importante da irrigação, e calcula que a mudança do clima pode elevar a demanda da irrigação em 15% até 2040 em relação à tendência, e em 20% nas regiões de irrigação mecanizada, num cenário mais crítico.

A irrigação compensa: segundo a ANA, citada pela Embrapa, cada hectare irrigado equivale a três hectares de sequeiro em produtividade física e a sete em produtividade econômica. A questão não é irrigar menos, é irrigar melhor.

Qual método de irrigação gasta menos água?

A irrigação localizada, por gotejamento e microaspersão. A eficiência de irrigação é a parte da água aplicada que a planta de fato aproveita, e o documento Manejo, eficiência e uso da água em sistemas de irrigação, da Embrapa Mandioca e Fruticultura, reúne as faixas de cada sistema:

MétodoSistemaEficiência
SuperfícieSulcos corrugados40% a 55%
SuperfícieFaixas55% a 75%
SuperfícieSulcos ou bacias em nível60% a 80%
SuperfíciePulso, o surge flow65% a 80%
AspersãoAutopropelido60% a 70%
AspersãoAspersão portátil60% a 75%
AspersãoPivô central de alta pressão65% a 80%
AspersãoAspersão fixa70% a 85%
AspersãoPivô central de baixa pressão e linear75% a 90%
LocalizadaMicroaspersão85% a 90%
LocalizadaGotejamento superficial ou enterrado85% a 95%

Dentro de cada método há muito a ganhar. No pivô central, baixar os emissores reduz a perda pelo vento: com os aspersores a meia altura, a eficiência fica entre 80% e 85%; perto do solo, entre 85% e 90%; e no sistema LEPA, com a água dirigida para sulcos, pode chegar a 90%. No gotejamento enterrado, a eficiência passa de 90%, porque quase não há evaporação.

O método não se escolhe só pela eficiência. A irrigação localizada é mais indicada para hortaliças e frutas, que pagam o custo do sistema, mas já aparece em culturas como a cana, com gotejamento enterrado. Há também a energia: por metro cúbico, a aspersão consome de 0,2 a 0,6 kWh, a localizada de 0,1 a 0,4 e a superfície de 0,03 a 0,3.

Por que o manejo pesa mais que o equipamento?

Porque o melhor sistema rende pouco se a água for aplicada na hora errada ou na quantidade errada. A Embrapa registra que, no campo, a eficiência fica abaixo do potencial de cada sistema por causa do manejo: a maioria dos irrigantes não tem o sistema bem configurado e não define com precisão quanto repor nem quando. O consumo da cultura muda com a fase de desenvolvimento e com o tempo, e o manejo fixo, copiado do projeto, tende a aplicar água a mais.

As ferramentas do manejo, segundo o documento:

FerramentaO que fazCuidado
Sensores de umidade do solo (tensiômetros, sondas de capacitância, TDR)Indicam o momento de irrigar e ajudam a calcular a lâminaPrecisam ficar na zona em que as raízes tiram pelo menos 80% da água, em pontos representativos de cada talhão
Evapotranspiração de referência (método de Penman-Monteith, FAO 56)Estima, com dados de estação meteorológica, quanto a cultura consumiuA precisão do clima medido define a precisão da lâmina
Balanço de água no soloRepõe a água quando o déficit passa do limite permitidoA perda por percolação profunda reduz a precisão
Avaliação da uniformidadeConfere se a água chega igual a toda a áreaPressão, espaçamento dos emissores e vento mudam o resultado
Aplicativos de manejoFazem as contas pelo irriganteFerramenta complicada demais acaba abandonada

Dividir a área em talhões com solos parecidos e manejar cada um separadamente completa o quadro. E nos perímetros em que a água chega em rodízio, a Embrapa aponta a mudança para a irrigação sob demanda, em que o produtor decide quando precisa de água, como um ganho importante de eficiência.

Quanto se economiza ao melhorar a eficiência da irrigação?

Muito, porque a conta é multiplicada por hectare e por dia. A Embrapa faz a conta para uma irrigação de 4 mm por dia, que equivale a 40 mil litros por hectare: com a eficiência média brasileira, de cerca de 59%, são precisos quase 68 mil litros. Subir a eficiência em um ponto percentual poupa cerca de 1.130 litros por hectare por dia; em 1.000 hectares, mais de 1,1 milhão de litros por dia.

A troca de método rende mais. Pela mesma definição de eficiência, entregar os mesmos 40 mil litros à cultura com um sistema de 70% exige cerca de 57 mil litros; com um de 90%, cerca de 44 mil, uns 22% a menos.

A média esconde diferenças regionais. Um levantamento de 1999, citado pela Embrapa em 2013, estimou a eficiência da irrigação por região:

RegiãoEficiência média da irrigação
Nordeste65,8%
Sudeste65,5%
Sul62,2%
Norte55,1%
Centro-Oeste30,8%
Brasil58,2%

São números antigos, e o próprio documento registra o avanço dos sistemas de maior eficiência desde então. Mas a conclusão da Embrapa continua atual: a eficiência do uso da água ainda não recebe no Brasil a atenção necessária, e o que se gasta na irrigação supera o que as culturas consomem.

Como economizar água na pecuária e na agroindústria?

Com as mesmas frentes de qualquer operação produtiva:

  • Bebedouros e boias. Boia desregulada transborda o dia inteiro. A revisão periódica dos bebedouros e das caixas d’água é a medida mais barata.
  • Limpeza a seco antes da lavagem. Nas cozinhas comerciais, a EPA aponta varrer, puxar com rodo e usar lavadora de alta pressão como alternativas que gastam muito menos água do que a mangueira comum. O mesmo princípio vale para baias, currais e salas de ordenha: raspar e varrer antes de lavar.
  • Medição por setor na agroindústria. Em frigoríficos, laticínios e usinas, a água se divide entre limpeza, resfriamento, caldeiras e processo, e cada um precisa do seu medidor para que se saiba onde está a perda.
  • Torres de resfriamento. Onde houver, subir os ciclos de concentração de 3 para 6 reduz em 20% a água de reposição, segundo a EPA.
  • Reúso. Água de processo tratada pode voltar para limpeza de pátios, resfriamento e caldeiras, conforme a qualidade exigida. O passo a passo está em reúso de água na indústria.

Como monitorar a água da fazenda e da agroindústria?

Medindo cada captação e cada reservatório. Pela Lei nº 9.433/1997, a captação de água de rios e a extração de água subterrânea para uso em processo produtivo estão sujeitas a outorga do poder público, salvo os usos considerados insignificantes. A outorga define quanto se pode retirar, e o medidor mostra quanto se retirou de fato.

Na prática:

  1. Medidor em cada captação e em cada poço, com leitura frequente.
  2. Nível dos reservatórios e funcionamento das bombas acompanhados à distância, para saber de uma bomba parada ou de um reservatório que esvazia rápido demais antes do prejuízo.
  3. Consumo por hectare irrigado ou por unidade produzida, comparado com o mesmo período do ano anterior.

O monitoramento remoto TDRR da T&D acompanha o nível de reservatórios e cisternas, o acionamento e a falha das bombas e o consumo hora a hora, com alerta por aplicativo, SMS, e-mail ou WhatsApp. Para a agroindústria, o SEA 360º faz a implementação, sem obras, com linha de base pelo protocolo IPMVP, caça-vazamento eletrônico e reparos, seguida da gestão continuada com relatórios mensais de eficiência e de impacto ESG. O roteiro completo para qualquer empresa está no guia de economia de água nas empresas.

Perguntas frequentes

Qual é o método de irrigação que mais economiza água?

A irrigação localizada: o gotejamento, superficial ou enterrado, tem eficiência de 85% a 95%, e a microaspersão, de 85% a 90%, segundo a Embrapa. Entre os sistemas de aspersão, o pivô central de baixa pressão e o linear chegam a 75% a 90%. A escolha depende também da cultura, do solo e do custo.

Gotejamento serve para qualquer cultura?

É mais indicado para hortaliças e frutas, que pagam o custo do sistema, mas já é usado em outras culturas, como a cana, com o gotejamento enterrado. Para grandes áreas de grãos, o pivô central de baixa pressão é a alternativa de maior eficiência entre os sistemas de aspersão.

Como saber a hora certa de irrigar?

Com sensores de umidade do solo bem posicionados, na zona em que as raízes tiram a maior parte da água, e com o cálculo da evapotranspiração a partir de dados de clima. Para a Embrapa, o uso dos sensores para definir o momento de irrigar é inquestionável, desde que fiquem no lugar certo.

Preciso de outorga para irrigar?

Em geral, sim. A Lei nº 9.433/1997 sujeita à outorga a captação de água de rios e a extração de água subterrânea para uso em processo produtivo, e dispensa os usos considerados insignificantes. Quem define o limite e emite a outorga é o órgão gestor: a ANA nos rios de domínio da União e o órgão estadual nos rios estaduais e nas águas subterrâneas.

A mudança do clima vai aumentar a água da irrigação?

A ANA calcula que a demanda da irrigação pode crescer 15% até 2040 em relação à tendência, por causa do clima, e 20% nas regiões de irrigação mecanizada num cenário mais crítico. Ganhar eficiência agora é a forma de produzir mais sem disputar mais água.

Fontes

Publicado originalmente em 05 de agosto de 2024. Atualizado em 15 de outubro de 2026.

Continue lendo

Artigos relacionados

Crise hídrica e empresas: a tarifa que dobrou e mais 4 consequências

Na crise de 2014 e 2015, a Sabesp cobrou até 100% a mais na tarifa de água de quem passou da média, inclusive de indústrias e comércios. Veja as cinco consequências da crise hídrica para empresas, da conta de água à conta de luz, e o plano de contingência que mantém a operação de pé.

10 min

Dia Mundial da Água: 7 ações para a empresa fazer em 22 de março

O Dia Mundial da Água é celebrado em 22 de março desde 1993, por decisão da Assembleia Geral da ONU. Veja como a data surgiu, os temas de 2024 a 2026 e 7 ações práticas para a empresa aproveitar o dia, da leitura noturna do hidrômetro à campanha interna, e manter a economia nos outros 364 dias.

6 min

Perdas de água: o Brasil perde 39,53% da água tratada antes da torneira

Em 2024, o Brasil perdeu 39,53% da água tratada antes de ela chegar ao consumidor. Veja como funciona a distribuição de água potável, o que são perdas físicas e aparentes, quais estados e cidades perdem mais, as metas da Portaria 788/2024 e quem paga a perda depois do hidrômetro.

9 min

Diagnóstico gratuito

Receba um diagnóstico da sua fatura de água

Se o assunto deste artigo é o seu problema, um especialista da T&D analisa o caso da sua operação e mostra o potencial de economia.

  • Análise feita por especialista em gestão hídrica
  • Implementação sem obras e sem parar a operação

Nenhum arquivo escolhido

Com a fatura em mãos o diagnóstico sai mais preciso e mais rápido. PDF ou foto, até 25 MB.

Resposta em até 1 dia útil. Seus dados não são compartilhados com terceiros.

Falar no WhatsApp