Economia de água nas universidades: o método que cortou 52% no campus da USP
O programa de uso racional da água da USP reduziu em 52% a demanda mensal de água da Cidade Universitária entre 1998 e 2014. Veja como ele foi montado, por onde começou, o que fez nos laboratórios, como mede cada prédio e quanto cada tipo de unidade economizou.
Por T&D Sustentável 10 min de leitura
Neste artigo · 9
- Por que a água pesa tanto no orçamento de uma universidade?
- Como montar um programa de uso racional da água no campus?
- Como reduzir a água dos laboratórios da universidade?
- Como medir o consumo de cada prédio da universidade?
- Quanto uma universidade pode economizar?
- Como manter a economia depois das obras?
- Como a T&D ajuda universidades e faculdades?
- Perguntas frequentes
- Fontes
Economia de água nas universidades funciona como programa permanente, e não como campanha: diagnóstico por prédio, caça aos vazamentos das redes, troca de equipamentos, revisão dos usos dos laboratórios e medição contínua. Foi assim que o Programa de Uso Racional da Água da USP, o PURA-USP, reduziu em 52% a demanda mensal de água da Cidade Universitária, de 137.881 para 66.247 m³ por mês, entre 1998 e 2014. O método está publicado e serve para qualquer campus.
Em resumo:
- Em 1997, a água era 16,79% das despesas de custeio da USP, sem contar pessoal e investimento, o dobro da energia elétrica. Em 2003, era 6,24%.
- O programa começou pelas 7 unidades que somavam cerca de metade do consumo do campus, com cerca de 8.300 pontos de uso revisados.
- Os laboratórios são o extremo: o Instituto de Química reduziu 70% do consumo até 2001, e os 240 destiladores do campus perdiam cerca de 50 litros de água para cada litro destilado.
- A medição por prédio e a telemedição transformam o consumo da madrugada em alarme de vazamento e permitem cobrar a água de restaurantes e outros terceiros.
- O resultado se mantém com gestão permanente: quatro anos depois do fim das obras, as unidades da primeira fase seguiam com 48% a menos.
Por que a água pesa tanto no orçamento de uma universidade?
Porque o campus é uma cidade com prédios antigos, muita gente e usos especiais. A Cidade Universitária da USP, em São Paulo, quando o programa começou:
| Item | Cidade Universitária da USP |
|---|---|
| Área construída | 740 mil m², em cerca de 250 edifícios, a maioria das décadas de 1960 e 1970 |
| População | 58.546 pessoas |
| Ligações de água | 122 |
| Consumo em 1997 | 150 mil m³ por mês |
| Peso da água no custeio | 16,79%, contra 8,26% da energia elétrica e 4,87% da telefonia |
| Manutenção | Equipes reduzidas e sem manutenção preventiva |
Prédios de décadas, sistemas hidráulicos sem modernização e laboratórios com equipamentos que consomem água o dia todo explicam a conta. Nos Estados Unidos, a EPA estima que os laboratórios podem usar cinco vezes mais água potável do que outros prédios comerciais do mesmo tamanho.
Como montar um programa de uso racional da água no campus?
Planejando antes de intervir. O artigo de três integrantes do PURA-USP, publicado em 2006 na revista Ambiente Construído, descreve o método em três tempos: planejamento, implantação em cinco etapas e gestão permanente.
O planejamento responde a quatro perguntas: por que fazer (o peso da água no orçamento), para que (quanto reduzir, em quanto tempo), onde (o estado dos prédios e das redes) e quem faz. Na USP, a resposta para «quem» foi uma comissão central, que planejava, especificava os equipamentos, contratava as empresas e geria a demanda, e uma comissão em cada unidade, que fazia a ponte com professores, diretoria e manutenção.
A implantação foi por fases, a começar pelas unidades que mais consumiam: 7 unidades com cerca de metade do consumo do campus em 1998 e 1999, as outras 21 em 2000 e 2001 e 9 unidades fora da Cidade Universitária em 2002. Em cada unidade, cinco etapas:
| Etapa | O que se faz | Na USP |
|---|---|---|
| 1. Diagnóstico | Prédios, redes, pontos de uso e histórico de consumo de cada unidade | Plano de intervenção com os pontos de maior potencial |
| 2. Perdas físicas | Vazamentos nas redes externas e nos reservatórios, com haste de escuta, geofone eletrônico e correlacionador de ruídos | Redes externas e, nos reservatórios, principalmente boias e extravasores |
| 3. Pontos de uso | Vazamentos internos e troca por equipamentos economizadores | Cerca de 8.300 pontos na primeira fase e 10.900 na segunda |
| 4. Hábitos e atividades | Cozinhas, laboratórios, rega, limpeza e ar-condicionado | Estudo dos destiladores e do reaproveitamento da água de resfriamento |
| 5. Divulgação e treinamento | Campanhas, manuais e treino da manutenção e dos usuários | Pesquisa com 450 usuários da primeira fase |
As trocas seguiram diretrizes por ambiente: torneiras de fechamento automático com arejador nos sanitários, sensor de presença nos sanitários de auditório, bacias de 6 litros no lugar das de 9 ou mais, fechamento automático nos chuveiros de vestiário, torneiras de alavanca com arejador nas copas e cozinhas e arejador ou restritor nas torneiras de laboratório, quando possível.
Como reduzir a água dos laboratórios da universidade?
Começando pelos destiladores. O campus da USP tinha 240, a maioria de um mesmo tipo, e eles perdiam cerca de 50 litros de água de resfriamento para cada litro de água destilada. As soluções vão da mais simples à mais sofisticada:
- Regular a entrada de água do destilador, que muitas vezes corre acima do necessário.
- Recircular a água de resfriamento, como alguns usuários já faziam.
- Trocar por sistemas de purificação mais eficientes, como osmose reversa ou ultrapurificação, conforme a qualidade de água que cada pesquisa exige.
O mesmo raciocínio vale, segundo os autores, para outros processos de laboratório que usam água. A regra do programa foi achar a melhor solução local sem comprometer a pesquisa, sempre com quem usa o equipamento. Os laboratórios, que usam mais água e escondem vazamentos com mais facilidade, foram também onde o programa colheu as maiores reduções.
Como medir o consumo de cada prédio da universidade?
Com medição setorizada e telemedição. O programa da USP chama de gestão da demanda o que vem depois das obras: organizar os dados, definir parâmetros de controle (consumo mensal, consumo por pessoa, perfil de vazão) e agir quando algo sai do padrão. Os passos:
- Cadastro das ligações. Conferir cada ligação, o que ela abastece e o estado do cavalete e do hidrômetro, e bater o cadastro com o financeiro e com a concessionária. A USP tinha 122 ligações de tarifação.
- Medidores por prédio. Em 2003, a USP já tinha 55 dos 235 hidrômetros de setorização previstos.
- Telemedição. A leitura automática mostra o perfil diário e as vazões mínimas da madrugada, que denunciam vazamento antes da conta.
- Cotas por unidade. Com o consumo medido, cada unidade pode ter uma cota, respeitando a sazonalidade, e responder pelo que passar dela.
- Cobrança de terceiros. Restaurantes, lanchonetes e outros concessionários do campus passam a pagar a água que consomem.
O consumo de um campus varia com férias, feriados, congressos, mudança de horário, reformas, enchimento de piscinas e equipamentos novos nos laboratórios. Por isso o programa compara período com período e procura a causa de cada variação, em vez de olhar só o antes e o depois. Como a telemedição acha vazamentos pelo padrão de consumo está em monitoramento remoto de água.
Quanto uma universidade pode economizar?
Os resultados da primeira fase da USP, por unidade, mostram como o tipo de uso muda a resposta:
| Unidade | Tipo de uso | Redução até 2001 | Redução até 2003 |
|---|---|---|---|
| Instituto de Química | Laboratorial | 70% | 56% |
| Faculdade de Ciências Farmacêuticas | Laboratorial | 69% | 60% |
| Instituto de Ciências Biomédicas | Laboratorial | 43% | 35% |
| Escola Politécnica | Misto | 39% | 43% |
| Hospital Universitário | Hospitalar | 35% | 48% |
| Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade | Humano | 24% | 39% |
| Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas | Humano | 20% | 33% |
| Total da primeira fase | 47% | 48% |
Os autores explicam as oscilações entre 2001 e 2003: um grande vazamento no Instituto de Química, obras no Instituto de Ciências Biomédicas e a correção de um problema nos reservatórios do Hospital Universitário. No campus inteiro, a redução chegou a 36% em 2003 e a 52% em 2014. E o peso da água no custeio caiu de 16,79% para 6,24%, mesmo com a tarifa 69% mais cara entre 1997 e 2003.
Como manter a economia depois das obras?
Tornando o programa permanente. A conclusão dos autores é direta: um programa de uso racional da água se faz com muito mais do que eliminar vazamentos e trocar equipamentos. Se faz com o caráter permanente do programa, com a gestão contínua da demanda e, principalmente, com a mudança de comportamento dos usuários.
A pesquisa com 450 usuários da primeira fase mostrou o terreno: 98% diziam economizar água e 76% avisavam um funcionário quando viam um vazamento. A queixa mais citada sobre as torneiras automáticas foi a diferença no tempo de fechamento entre uma e outra, que a própria manutenção consegue regular. Ouvir o usuário, dar retorno sobre os resultados e trocar a manutenção que só reage por manutenção preventiva são parte do método.
Para colégios e escolas de educação básica, com um projeto pronto para fazer com os alunos, veja economia de água nas escolas.
Como a T&D ajuda universidades e faculdades?
Com três caminhos, conforme o tamanho da equipe própria. No SEA 360º, a T&D faz a implementação, sem obras, com linha de base pelo protocolo IPMVP, tecnologia de eficiência nos pontos de consumo, caça-vazamento eletrônico, reparos e capacitação da manutenção, e segue na gestão continuada com relatórios mensais de eficiência financeira, operacional e de impacto ESG. O teto observado no programa completo é de 70% de redução.
O monitoramento remoto TDRR faz a telemedição dos reservatórios, das bombas e do consumo hora a hora, com alerta por aplicativo, SMS ou WhatsApp. E para a instituição que quer conduzir o próprio programa, o HydroDesk combina a tecnologia comprada pela universidade, a capacitação da equipe e a consultoria remota, numa jornada em quatro fases que chega ao relatório de sustentabilidade.
Perguntas frequentes
Quanto de água uma universidade consome?
Depende do tamanho e dos usos. Na Cidade Universitária da USP, em 1997, eram 150 mil m³ por mês para cerca de 58 mil pessoas, com laboratórios, um hospital e restaurantes. Depois do programa de uso racional, a demanda caiu para 66.247 m³ por mês em 2014.
Por onde começar a economia de água no campus?
Pelas unidades que mais consomem. A USP começou por 7 unidades que somavam cerca de metade do consumo do campus, escolhidas também para cobrir tipos de uso diferentes: laboratorial, hospitalar, humano e misto.
Laboratório gasta mais água que sala de aula?
Gasta. Segundo a EPA, laboratórios podem usar cinco vezes mais água potável do que outros prédios comerciais do mesmo tamanho. Na USP, os destiladores perdiam cerca de 50 litros de água para cada litro destilado, e as unidades de laboratório foram as que mais reduziram.
O que fazer com a água dos restaurantes e lanchonetes do campus?
Medir e cobrar. Com medidor próprio, cada restaurante ou lanchonete paga a água que consome, e passa a ter motivo para economizar. As medidas de cozinha estão em economia de água em restaurantes.
A economia de água da universidade se mantém com o tempo?
Se mantém quando o programa é permanente. Na USP, as unidades da primeira fase, com obras terminadas em 1999, seguiam com 48% a menos em 2003, e o campus chegou a 52% de redução em 2014. Sem gestão contínua, vazamentos e hábitos antigos voltam.
Fontes
- Universidade de São Paulo, PUERHE: histórico do Programa de Uso Racional da Água: redução de 52% na demanda mensal de água da Cidade Universitária, de 137.881 para 66.247 m³ por mês, de 1998 a 2014
- Silva, G. S.; Tamaki, H. O.; Gonçalves, O. M. Implementação de programas de uso racional da água em campi universitários. Ambiente Construído, v. 6, n. 1, 2006: planejamento, etapas, diretrizes de equipamentos, destiladores, gestão da demanda, pesquisa com usuários e resultados por unidade
- EPA WaterSense, Types of Facilities: consumo de água dos laboratórios
- SEA 360º, TDRR e HydroDesk da T&D
Publicado originalmente em 25 de outubro de 2024. Atualizado em 15 de outubro de 2026.