Consumo de água por setor: a irrigação leva metade e a indústria, 10%
Em 2024, o Brasil retirou 2.098,7 m³/s de água dos rios e aquíferos. A irrigação levou 50,3%, o abastecimento das cidades cerca de 22% e a indústria de transformação cerca de 10%. Veja quanto usa cada setor, por que a irrigação domina, quais indústrias mais usam água, onde a demanda vai crescer e o que isso muda para a empresa.
Por T&D Sustentável 8 min de leitura
Neste artigo · 9
A agricultura irrigada é, de longe, o setor que mais usa água no Brasil. Em 2024, o país retirou 2.098,7 metros cúbicos por segundo de rios, lagos e aquíferos para os usos consuntivos, cerca de 66 trilhões de litros no ano, e a irrigação ficou com 50,3%, segundo o relatório Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil 2025, da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). O abastecimento das cidades levou cerca de 22%, e a indústria de transformação, cerca de 10%.
Em resumo:
- Irrigação: 1.056,3 m³/s, 50,3% da retirada total, com o arroz irrigado por inundação como a maior parcela.
- Abastecimento urbano: cerca de 468 m³/s, 22% do total, com São Paulo respondendo por 26% desse uso.
- Indústria de transformação: 207,3 m³/s, cerca de 10%, concentrada em alimentos e bebidas, papel e celulose, metalurgia, derivados de petróleo e biocombustíveis.
- Criação animal, termelétricas, mineração e abastecimento rural completam o quadro.
- Até 2040, a ANA projeta um acréscimo de 1,207 trilhão de litros por ano nas retiradas, puxado pela irrigação.
Quanto cada setor usa de água no Brasil?
A ANA estima as retiradas de cada setor na Base Nacional de Referência de Usos Consuntivos da Água. Os números de 2024:
| Setor | Retirada em 2024 | Participação |
|---|---|---|
| Agricultura irrigada | 1.056,3 m³/s | 50,3% |
| Abastecimento humano urbano | cerca de 468 m³/s | cerca de 22% |
| Indústria de transformação | 207,3 m³/s | cerca de 10% |
| Criação animal | 174,9 m³/s | cerca de 8% |
| Termelétricas | 132,4 m³/s | cerca de 6% |
| Abastecimento humano rural | 30,8 m³/s | 1,5% |
| Mineração | 28,6 m³/s | 1,4% |
| Total | 2.098,7 m³/s | 100% |
Três setores, cidades, irrigação e indústria de transformação, respondem por cerca de 82% das retiradas. A distribuição muda muito pelo território: Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo e Bahia somam mais da metade da retirada do país, e o Sudeste lidera entre as regiões, com 34,5%.
Qual a diferença entre retirada e consumo de água?
A retirada é toda a água captada para um uso; o consumo é a parte que não volta aos rios. A ANA separa três componentes em cada uso consuntivo: a retirada, a água total captada; o consumo, a água retirada que não retorna diretamente aos corpos hídricos; e o retorno, a parte que volta, como o esgoto das cidades e o efluente das fábricas.
A diferença importa. Na irrigação, boa parte da água evapora ou é absorvida pelas plantas e não volta ao rio. No abastecimento urbano e em muitas indústrias, uma parcela grande volta como esgoto ou efluente, mas volta com outra qualidade, e por isso o tratamento pesa tanto quanto a quantidade. Já os usos não consuntivos, como geração hidrelétrica, navegação e turismo, não captam água, mas dependem dela em quantidade e qualidade.
Por que a irrigação usa tanta água?
Porque produz comida em escala, e algumas culturas são muito intensivas em água. Em 2022, o Brasil tinha 8,6 milhões de hectares equipados para irrigação, dos quais 2,9 milhões eram de fertirrigação com água de reúso, principalmente vinhaça nos canaviais. Dois sistemas dominam:
- Arroz irrigado por inundação. É a maior parcela do uso de água na irrigação, com cerca de 350 m³/s. A média nacional é de 8,3 mil m³ por hectare, perto de 1.050 litros para cada quilo de arroz. O Rio Grande do Sul concentra 72,3% da área plantada.
- Pivôs centrais. Em 2022, o país passou de 30 mil pivôs, com 1,92 milhão de hectares equipados, para soja, milho, feijão e algodão, sobretudo em Minas Gerais, Goiás, Bahia e São Paulo.
A conta da água escondida nos alimentos que a empresa compra, do café à carne, está em água virtual e pegada hídrica.
Quanto a indústria usa de água?
Cerca de 10% da retirada nacional. Em 2024, a indústria de transformação retirou 207,3 m³/s, e a indústria extrativa mineral, 28,6 m³/s. Segundo a ANA, os setores de alimentos e bebidas, papel e celulose, metalurgia, derivados de petróleo e biocombustíveis respondem por cerca de 80% da demanda industrial de água.
| Região | Parcela da retirada industrial |
|---|---|
| Sudeste | 45% |
| Nordeste | 21% |
| Sul | 18% |
| Centro-Oeste | 14% |
| Norte | 2% |
No Nordeste, predominam a cadeia têxtil e o setor sucroenergético; no Sul, as agroindústrias. Na mineração, o minério de ferro responde por 49,8% das retiradas do setor, e Pará e Minas Gerais concentram 39% e 38%. A intensidade de uso por unidade produzida, segundo a ANA, depende do processo, da escala, da automação, da tecnologia e da maturidade da gestão hídrica da fábrica, e é aí que a empresa tem margem para reduzir. O passo a passo para fechar o circuito da água está em reúso de água na indústria.
Quanto as cidades usam de água?
Cerca de 22% da retirada, o segundo maior uso. Em 2024, o abastecimento humano urbano retirou cerca de 468 m³/s, com forte concentração nos estados mais populosos: São Paulo (26%), Rio de Janeiro (11%), Minas Gerais (10%) e Rio Grande do Sul (5%). O Sudeste responde por 49% dessa água. De 2000 a 2024, a retirada para as cidades cresceu 32%.
Escritórios, lojas, hotéis, hospitais, escolas e condomínios ligados à rede pública entram nessa parcela, junto com as residências. E uma parte grande da água tratada se perde antes de chegar a qualquer um deles, como mostra perdas de água no Brasil.
Onde a demanda por água vai crescer?
Nas regiões de irrigação e de crescimento urbano-industrial. A ANA projeta um acréscimo de 1,207 trilhão de litros por ano nas retiradas até 2040, com destaque para a agricultura irrigada. As maiores altas absolutas previstas estão nas bacias do São Francisco (+137,4 m³/s), do Paranaíba (+76,7 m³/s), do Tocantins-Araguaia (+65,8 m³/s), do Uruguai, do Grande, do Paranapanema, do Paraná, do Paraíba do Sul e do Doce.
Mais demanda na mesma bacia significa mais disputa pela água em anos secos. As áreas críticas do balanço hídrico, onde a demanda passa da oferta, estão associadas, em geral, a polos de agricultura irrigada. Quando a seca aperta, a lei dá prioridade ao consumo humano e à dessedentação de animais, como mostra crise hídrica e empresas: 5 consequências.
O que isso significa para a sua empresa?
Que cada metro cúbico da empresa disputa espaço com a cidade, o campo e a indústria da mesma bacia. Três consequências práticas:
- Captação própria é cada vez mais regulada. Outorga, cobrança pelo uso e revisão em escassez. Veja cobrança pelo uso da água.
- Quem está na rede pública divide a água das cidades. Na crise de 2014 e 2015 em São Paulo, a concessionária reduziu a pressão da rede e criou uma tarifa de contingência para quem passava da média.
- A água entra no relatório. Relatórios de sustentabilidade, como os que seguem a norma GRI 303, pedem retirada e consumo de água medidos.
A resposta começa por medir o próprio uso e reduzir o que é desperdício. O SEA 360º da T&D faz a implementação, sem obras, com linha de base pelo protocolo IPMVP, tecnologia de eficiência nos pontos de consumo, caça-vazamento eletrônico e reparos, e segue com a gestão continuada, com relatórios mensais de eficiência e de impacto ESG. O teto observado no programa completo é de 70% de redução no consumo. O panorama completo, do diagnóstico às metas, está em economia de água nas empresas.
Perguntas frequentes
Qual setor mais consome água no Brasil?
A agricultura irrigada. Em 2024, ela respondeu por 50,3% da água retirada no país, 1.056,3 m³/s, segundo a ANA. Em seguida vêm o abastecimento das cidades, com cerca de 22%, e a indústria de transformação, com cerca de 10%.
Quanto de água a indústria usa no Brasil?
Em 2024, a indústria de transformação retirou 207,3 m³/s, cerca de 10% do total do país, e a indústria extrativa mineral, 28,6 m³/s. Alimentos e bebidas, papel e celulose, metalurgia, derivados de petróleo e biocombustíveis somam cerca de 80% da demanda industrial.
Qual a diferença entre retirada e consumo de água?
Retirada é toda a água captada para um uso. Consumo é a parte dessa água que não volta diretamente aos rios, porque evapora, é incorporada ao produto ou é absorvida pelas plantas. O restante é o retorno, como o esgoto e os efluentes.
Quanta água é usada para produzir arroz?
No arroz irrigado por inundação, a média nacional de retirada é de 8,3 mil m³ por hectare, cerca de 1.050 litros por quilo de arroz, segundo a ANA. É a cultura que mais usa água na irrigação brasileira.
Quanto de água as cidades brasileiras usam?
Cerca de 468 m³/s em 2024, 22% da retirada total, segundo a ANA. São Paulo responde por 26% desse volume, e o Sudeste, por 49%.
Fontes
- ANA, Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil 2025, capítulo Usos da água: retiradas por setor em 2024, irrigação, abastecimento, indústria, mineração, termelétricas, projeções até 2040 e reúso
- ANA, Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil 2025, relatório síntese: retirada total, participação da irrigação e retiradas por estado e região
- SEA 360º da T&D
Publicado originalmente em 29 de abril de 2024. Atualizado em 16 de outubro de 2026.